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Os prós e os contras de ser uma promessa no vale tudo

O conceito de “promessa” nos dicionários é bastante simplório. Resume-se a poucas e objetivas definições. Entretanto, o conceito de promessa torna-se bem mais complexo quando se é aplicado a um lutador no âmbito do Vale Tudo.

Qual seria, então, a definição de promessa quando esta passa a se inserir no mundo das lutas? A princípio, seria aquele lutador que tem tudo para se tornar um lutador de ponta em sua categoria, tendo em vista toda a expectativa criada por causa de suas vitórias contundentes, mesmo aquelas sobre adversários de pouca expressão.

Então, a “promessa” começa a enfrentar oponentes mais renomados, mais “cascas-grossa”, para que só então deixe de ser uma promessa e “progrida” para o adjetivo “realidade”. Então, a princípio – e é importante que se faça esta ressalva – ser uma promessa é o que todos os lutadores gostariam de ser, correto?

Depois de uma rápida reflexão sobre o tema, percebe-se que não. Ser uma promessa é algo que, pensando melhor, nenhum lutador gostaria de ser. O lutador é um ser humano que conta com duas coisas principais durante uma luta: a parte física e a parte psicológica. É quase impossível que um lutador sobreviva a uma luta apenas com um desses dois atributos principais. Um exemplo que pode vir facilmente à mente do caro internauta é o Vítor Belfort, que afirma não ter lutador “10%” do que poderia lutar em seu último combate, contra o experiente americano Dan Henderson.

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Há vários outros exemplos de lutadores que tiveram o seu psicológico abalado após determinado acontecimento, geralmente traduzidos em derrotas fulminantes, e que estão na luta para se recuperar: Quinton “Rampage” Jackson, Murilo “Ninja” Rua, Igor Vovchanchin dentre outros. É importante salientar que aqui não se entra no mérito dos lutadores citados terem sido ou não promessas. Analisa-se apenas o efeito de uma derrota grande. O psicológico fica extremamente abalado após uma derrota devastadora, por assim dizer.
Entretanto, em um lutador ao qual se atribui o adjetivo “promessa”, uma derrota funciona mais drasticamente ainda do que em outros lutadores. E o pior: seja a derrota por nocaute, por pontos, por finalização, enfim, seja por qual motivo for, ela será drástica nas piores proporções da palavra e também por causa da mais cruel personagem do Vale Tudo: o público.

Temos um exemplo bem recente do que está escrito no parágrafo anterior: Antônio “Pezão” Silva, derrotado por nocaute técnico contra Eric Pele no Bodog Fight, evento ocorrido no último Sábado, dia 02 de Dezembro. É bem verdade que a derrota gerou inúmeras controvérsias oriundas do comportamento do árbitro, que teria prejudicado Pezão em momentos importantes da luta. Entretanto, o resultado oficial não será mudado, tenha o árbitro errado ou não, e Pezão agora conta com a primeira derrota oficial em seu cartel. A princípio (observem a ressalva novamente) foi um imenso banho de água fria em todos os brasileiros que tinham em Pezão a principal promessa dos pesos pesados. O lutador vinha de vitórias devastadoras por nocaute sobre adversários não tão conhecidos, exceto o Tom Erickson, derrotado de forma fulminante em um Ground n’ Pound furioso do brasileiro. Desde então, Pezão seria o homem a reinar, em um futuro próximo, na categoria dos pesados. Seria um banho de água fria no público, mas será que seria também um banho de água fria no próprio Pezão?

Entretanto, é imprescindível reportar tal derrota ocorrida como sendo... uma simples derrota. Pode parecer impossível fazer isso, pois o Pezão é – seria errado escrever “era” – a maior promessa brasileira dos pesados, e porque não dizer mundial, do Vale Tudo. A derrota adquiriu a mesma proporção das expectativas que foram criadas em cima do atleta. Nesse caso, o psicológico do atleta pode desmoronar mais fácil ainda. Logicamente, espera-se que isso não ocorra com o Pezão, ainda mais tendo em vista que a derrota poderia ser atribuída a um erro do Juiz, mas isso cabe ao internauta.

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Nenhum lutador gosta de passar despercebido. Mas nenhum lutador gosta de se tornar o centro de esperanças de milhões de pessoas que, sem nenhuma piedade, já talham em sua “vítima” responsabilidades demasiadamente grandes, gigantescas. Talvez alguns lutadores até gostem, seja por falta de visão ou por uma euforia descontrolada. O psicológico do lutador não influi apenas no momento da luta, mas antes, durante e depois de cada vitória ou derrota. Uma “promessa” é um lutador como qualquer outro, suscetível de derrotas. E se perdeu, é porque lutou. Portanto, o conceito de promessa no Vale Tudo se transforma em um verdadeiro fardo para lutadores que assim passam a ser denominados. Perde-se a tranqüilidade e a concentração em prol de uma euforia que, na maioria das vezes, não é proveniente nem mesmo do próprio lutador, mas sim transmitida a este pelo público, que insiste em não ter calma e em querer atirar o “pobre” lutador aos leões, atribuindo-o adjetivos exagerados que superam até mesmo o conceito de ser humano. A uma “promessa” é inaceitável a derrota. Se uma “promessa” perder, voltará a ser um simples lutador. Mas muita gente não percebe que uma “promessa” já é um simples lutador, mesmo que ainda não tenha perdido.

O Pezão perdeu. Ponto. E daí? É triste, pois a derrota é triste. Mas ele é um lutador que já ganhou muito mais do que perdeu, com vitórias mais convincentes do que foi a sua derrota. Talvez o balde de água fria tenha sido pior no público em geral do que no próprio Pezão. Talvez, em seu íntimo, ele enxergue algumas deficiências, pontos a serem melhorados, coisas que o público não tem o poder e a sensibilidade de enxergar, o que acaba sendo perigosíssimo. O público tem um papel importante para um lutador, mesmo que este público não saiba disso. É uma variante a mais na equação que vai definir um psicológico positivo ou negativo do lutador. Se o Pezão sabe que perdeu por um ponto negativo em seu jogo e sabe que tem que trabalhar, treinar e evoluir mais ainda, ótimo! Mas, se por outro lado o mesmo público que queria atirá-lo aos leões de forma imediata, sem alicerces sólidos o bastante, avistar nessa derrota um “fim de carreira”, “lutador fraco”, “nunca vai ser top”, etc., poderá se tornar uma variante negativa no psicológico do Pezão. Pior ainda: o público quase sempre se torna uma variante negativa, ao jogar no lutador uma expectativa que ele não pediu, e que ele sabe não condizer com a realidade, pelo simples fato do lutador entender que é um lutador e que sempre irá melhorar, seja vitorioso ou não em uma luta.

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